Entre Aspas: Rodoviária

bagagem

Antes de embarcar, espero numa fila longa para depositar a bagagem na parte inferior do ônibus.

A medida que a fila se move, percebo o funcionário responsável por acomodar as malas no bagageiro. É um sujeito franzino, ainda novo.

Vendo-o, sei que o rapaz é de origem humilde. Conjeturo que sua família é bastante pobre.

Sua simplicidade revela-se em seus gestos, em seus olhos, na dignidade com que porta o uniforme da companhia de viação.

Com seu corpo frágil, o rapaz levanta, obstinado, mala por mala, e vai dispondo uma a uma, organizadamente, no compartimento do carro.

Realiza a tarefa com esmero e seriedade. Concentrado, alterna-se entre colar na mala a etiqueta numérica, entregar o canhoto ao passageiro e guardar o volume.

Dispensa grande esforço físico. Transpira no rosto. Algumas malas são realmente grandes e pesadas.

Na fila, os passageiros são muitos, e quase todos bem maiores e mais fortes que o rapaz das malas.

Observo essa cena por alguns instantes e, num golpe, compadeço-me daquele moço que guarda as bagagens.

Vejo no seu rosto simples o rosto de todo o meu povo. Meu povo que carrega nos braços e nas costas o peso de um país inteiro. Gente fraca, porém forte.

Tenho vontade de ajudar o rapaz com as malas; tenho vontade de dar-lhe água e conforto.

Tenho desejo de pegar minha gente no colo, de abraçar minha gente, de ninar minha gente.

Apesar das luzes, do barulho e do movimento, consigo sentir a noite. Foi o moço das malas, que me comoveu e me encheu de ternura.

Quem escreveu: Daniela Antoniassi, paulista por certidão e mineira de coração. Daniela é formada pela Universidade de São Paulo e apaixonada por Literatura, especialmente Guimarães Rosa. Escreve desde sempre e agora vive em Paris, onde estuda francês e ensaia para seu mestrado em Antropologia Humana.

Entre Aspas: Sinestesia/Despedida

flor amarelaChegou em casa, colocou as compras em cima do sofá. Foi correndo se lavar. Naquela semana, escolheu flores amarelas para enfeitar o jantar. Podou. Cortou. Colocou no vaso. Molhou a casa se embaralhando para fazer tudo sem nem mesmo se secar. Foi manchando o chão de poças escuras. O taco bege. O taco marrom. O taco preto. Foi escolher o vestido. O pretinho que ganhou dele no ultimo aniversário. Arrumou-o no corpo, ajustou o fecho apertado, tentou se encaixar. Não conseguiu calçar os sapatos. Ele poderia chegar a qualquer momento. Estava tudo pronto. Esperava há tempos. Acendeu uma vela dourada e brilhou o olhar. O amarelo das flores aos poucos foi desaparecendo no vestido preto. A luz do fogo ameaçou falhar. Sentiu seus pés ainda úmidos e as mãos quentes a congelar. Os amarelos murcharam e ele não veio. Ficou o escuro e sumiu o brilho. Apagou a vela e tentou chorar. O preto calou suas lágrimas. E, então, ficou só.

Quem escreveu: Ana Luiza Pereira insiste que os milagres são cotidianos. Por isso, ela treina o seu olhar diariamente no blog A Pattern a Day. A mineira, que estudou Design em Berlim e Curadoria de Arte Contemporânea em Londres, tem certeza que deixa um pedaço de si a cada exposição que visita. Sua grande inspiração é sua avó.

Entre Aspas

caminhos

Estudaram juntos da primeira à quarta série. Ela era a melhor aluna da classe, a mais bonita, a menina perfeita. Ele, do lado de dentro dos seus muros, nunca chegou a falar com ela.

Só reencontraram-se uns vários anos depois, quando prestavam vestibular. Ambos para Direito. Dessa vez conversaram. Ela continuava estudiosa, continuava linda, continuava envolta em capa de intangibilidade. Ele, pensou consigo, passos trôpegos, direção incerta. Continuava desajeitado como um menino.

Aconteceu de passarem os dois na mesma faculdade. Ela, de manhã; ele, à noite. E nos anos da graduação, cada um em seu caminho, pouco se cruzaram. Tão próximos e tão distantes. Ela, sempre a aluna dedicada. Ele, sempre um tanto perdido.

Depois da formatura, não tinham mais se visto. Viviam os dois sem atinar bem que a Fuvest fora quase vinte anos atrás. Reencontraram-se casualmente, como muitos se reencontram hoje em dia, na rede social. Marcaram de tomar um café.

Ela contou sua vida até ali. Estagiou e foi efetivada num desses escritórios maiores do Brasil. Hoje, era sócia. Devia ganhar uma grana. Fez mestrado e agora terminava o doutorado em Processo Civil. Repetiu algumas vezes que, embora não vislumbrasse como, sonhava em um dia mudar de profissão.

Casou-se com o primeiro namorado, mais por falta de habilidade social para se arriscar em outras histórias de que por certeza de paixão ou amor. Completava dezoito anos de casamento. Gostaria de ter tido filhos, mas os estudos e o trabalho nunca lhe deixaram tempo. Também não tinha muito tempo pra passar junto ao marido. Os dois, assim, não se davam mal, e tampouco se davam bem.

Ele escutava e observava. Ela perdera todo seu viço. Parecia uma velha; parecia ser dez anos mais velha do que ele. Era bela, ainda, mas a beleza se escondia em algum lugar longínquo, muito atrás do horizonte dos olhos.

E ele também contou sua vida até ali. Vida de linhas tortas. Fez política estudantil, advogou para um sindicato, perdeu o emprego, começou de novo, buscou outras coisas, buscou-se em outras coisas, e de novo, e de novo. Nesse momento, desejava ainda recomeçar. Foi difícil, era difícil, mas só desse jeito atrapalhado ele sabia viver.

Também sofreu por amor. E fez sofrer. Reconstruiu-se e voltou a cair, o rasgar-se e remendar-se, uma, duas, três vezes. Agora, estava sozinho. Mas com o coração tranquilo. Feliz por se sentir vivo, e triste ao mesmo tempo, porque, afinal, a vida era uma composição inevitável de alegria e tristeza.

Enquanto falava, ele reparou que os olhos dela brilhavam de encantamento. Ela, protagonista das histórias que deram certo, encantava-se com as histórias dele, histórias erradas. Chegava a invejá-lo, a invejar tombos e cicatrizes. Na pele dela, havia apenas a marca do tempo.

Ele saiu arrasado daquele encontro. Triste por ela, tentando imaginar em qual curva de sua estrada reta a menina mais linda tinha deixado seu brilho. Percebeu que talvez ela apenas continuasse a mesma; talvez ela apenas nunca tivesse mudado. E quiçá o brilho da menina não tenha existido, sempre, somente nos olhos dele.

Num impulso de clareza e sinceridade, ele disse a si mesmo que não desejava nunca mais voltar a vê-la.

Quem escreveu? Daniela Antoniassi, paulista por certidão e mineira de coração. Daniela é formada pela Universidade de São Paulo e apaixonada por Literatura, especialmente Guimarães Rosa. Escreve desde sempre e agora vive em Paris, onde estuda francês e ensaia para seu mestrado em Antropologia Humana. Mais textos no http://confeitariamag.com/author/danielaantoniassi/

Entre Aspas

crescer

A indecisão na pós-adolescência. A dificuldade de seguir no caminho escolhido. Entre ser teenager ou adulto, você se sente como Peter Pan fazendo previdência privada. Uma falta de ser tanta coisa ao mesmo tempo. Saudades daquele suposto eterno misto de vontade e possibilidade.

Envelhecer é um pouco como seguir em frente enquanto as vozes dentro da gente silenciam. Aquelas que te contavam sobre o que ser quando crescer, a cor do primeiro carro, a viagem das férias, seu tipo de roupa, seu tipo de homem. Cada escolha analisada no travesseiro podem lhe fazer sentir como um estranho a você mesmo. Fui eu mesmo que quis isso para mim? Quem disse?

E nessa ânsia de encontrar um reforço positivo, é tão fácil transformar a vida da gente num verbete de wikipedia. Aceitar a opinião alheia como único norte pra dúvidas. Duvidar-se. Criar regras e padrões que nem sempre funcionam, mas dão um mapa, um guia, ainda que sob o risco de tornar-se um quebra-cabeça com peças que não são nem suas.

Nesses tempos em que a vida de todo mundo é tão exposta e comparada, como não poderia deixar de ser, é comum se sentir perdido quando se mede pela regra dos outros. Estou saindo tanto quanto deveria? Ganho pouco? Amo demais? Devo trocar de carro? De namorado? Sou feliz?

Pode parecer sufocante sentir que sua vida não se move tão rápido quanto a dos outros. Estamos condicionados a oferecer aos outros o que eles esperam da gente. E, se isso não acontece, criamos desculpas. Não é preciso se desenvolver acompanhando a matilha só porque nasceu em 1990 e há livros sobre a Geração Y. Não é o autor quem vai conviver com as escolhas que você faz para a sua vida. Está tudo bem em ser diferente. Há muita margem entre ser hippie e ser um controlador de vôo. Há muita margem entre o que é o outro e o que é você.

Muitas das perguntas que tenho sobre o que quero ser depois de crescer não são nem minhas. São ecos de gente que está bem mais confusa do que você. E o que a gente faz quando percebe que grande parte dos nossos problemas são frustrações adolescentes adquiridas em frente aos espelhos dos outros? Fala um pouco menos, sente um pouco mais, arranja problemas de verdade e aprende a confiar no seu silêncio. Nada fala mais alto que ele. Ele é você em paz. Tem algo diferente disso que você queira ser?

Sobre o autor: Felipe Luno (no twitter @felipeluno) é jornalista, escritor, coleciona pequenos pecados amorosos e acredita em um mundo com menos carão e mais carinho. Para ler outros textos acesse www.dramaking.org

Entre Aspas

Muitas vezes damos importância demais para problemas que não afetam nossa vida em nenhum sentido. Muitas vezes ficamos assustados com o que vai acontecer com o nosso futuro, e esquecemos de que nem o passado nem o futuro importam, apenas o presente. Apesar de todos os problemas, todas as confusões, nunca deixe seu presente ser abalado. Aliás, a vida é uma só, e não existe passado nem futuro depois que morremos, pois ela é feita apenas de presente. Então viva o hoje e seja feliz enquanto há tempo.

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Entre Aspas

Chamar alguém de feio não te deixa mais bonito. Ficar sem comer não te deixa um palito. Excluir uma pessoa não te torna mais popular, não são as marcas que vão te rotular. Chamar alguém de gordo não te emagrece, dizer que uma pessoa é triste não traz felicidade. Falar que alguém é fraco não te fortalece, dizer que uma pessoa é metida não te traz a humildade. Falar que alguém é insignificante não te engrandece, dizer que uma pessoa é falsa não te leva à verdade. Dinheiro não compra felicidade. Conhecer muita gente não é o mesmo que ter amigos, ser famoso é diferente de ser querido, sexy não é o mesmo que vulgar, atração é diferente de amar.

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Entre Aspas

Todos nós somos um templo, onde abrigamos nossos sentimentos, desejos, emoções, vivências, realidades, experiências, contatos, realizações, ansiedades, frustrações, alegrias e tristezas, sucessos e fracassos, acolhidas e recusas; enfim, nós mesmos.  É nesta casa-templo que ensejamos nossas oportunidades… Viver é uma experiência; estar motivado é um desafio!  Casa da motivação – um amplo espaço, arejado e limpo, onde queremos e vamos acolher o nosso cotidiano. Será aqui o abrigo fecundo e belo para novas experiências, vividas e compartilhadas, com todos e por todos.

Seja bem-vindo e que a riqueza e alegria íntimas que guarda em seu coração sejam todas elas experimentadas por toda a humanidade, tal qual o firmamento pontilhado de estrelas iluminadas pela força do bem.  Abra as janelas e deixe a porta aberta para que a sua casa seja abrigo da motivação, do bem viver, da coragem de estar sempre bem e de bem com a vida e com todos.  Mesmo em dissonância com o ambiente ao seu redor – tantas vezes refletido por muitos nas tristezas e descrenças da motivação -, seja sempre este abrigo acolhedor.  Mantenha estrategicamente no seu coração um sorriso e acredite: você se faz a cada amanhecer!

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