Entre Aspas

sozinha

Acordar de manhã, abrir os olhos e perceber que, durante a noite, você atravessou a cama de norte a sul, derrubando todos os travesseiros e pensar: “bah, esse é o lugar mais gostoso do mundo agora.”

Hesitar em sair dos abraços do edredom  respirando fundo, porém leve, e levantar de uma vez só. Isso porque você simplesmente não se aguenta de ansiedade pro dia começar.

Cruzar olhares com o espelho, descer os olhos até os pés como quem procura uma novidade, e dar um sorriso de canto. Sair rumo ao banho se espreguiçando e encontrar a primeira dúvida do dia: “que música eu ponho pra tocar agora?”. Ser livre pra escolher sem culpas entre Beyoncé, M83 ou Yann Tiersen, mas, no fim, optar pelo silêncio pra cantarolar sozinha Tibério Azul. É verão e eu quero mais é desafinar sobre as lindezas da vida enquanto vejo o dia azul nascer lá fora.

Dar-se o tempo necessário pra sair satisfeita pro mundo, passar mil cremes ou não passar nenhum. Não se preocupar se a calcinha de hoje é de renda ou de algodão, fio dental ou boneca. Cogitar uma mudança de planos e colocar o estojo de maquiagem inteiro na bolsa porque… vai que quero sair pra tomar um drink no fim da noite?

Pisar na rua sabendo que as possibilidades daquele dia são infinitas e que é você quem orquestra a banda. Chegar no trabalho e se sentir um peixe fora d’água. Mergulhar naquele aquário de apatia cubicular, algo tão distante do seu grand canyon imaginário com uma Go Pro na testa. Rir disso.

Escutar as conversar, flertar de leve, receber ligações com convites tentadores e deixar a decisão pra depois. Pra que a pressa? Aceitar todos os planos dos amigos para o fim de semana e, sem mais nem menos, fazer qualquer outra coisa. Não existem regras, só vontades.

Sair pela porta do trabalho sabendo que seu dia ainda está pela metade, mesmo que seja onze da noite. E não porque você tenha mais trabalho pela frente, mas sim porque você tem algo muito mais importante: vida e disposição.

Adiar a leitura daquele livro e ir no seu restaurante predileto. Mudar de ideia no meio do caminho, ir em outro e pedir um prato novo, com seu drink favorito e bater um bom papo com você mesma. Traçar rotas e arquitetar qual o próximo passo pra conquistar o seu mundo.

Observar olhares de pessoas que não entendem porque você está jantando sozinha. “Será que ela não tem amigos? Será que o namorado está vindo? Ou ela está de passagem pela cidade? Será que vou lá falar com ela? Que triste ver ela jantando sozinha!”. Pagar a conta e, mais uma vez, achar graça nesse grande zoológico humano.

Chegar em casa, observar o silêncio. Nunca ligar a televisão. Deixar as roupas largadas pela sala. Se jogar em algum canto e gastar bons minutos fazendo… Qualquer coisa!

Responder mensagens que ficaram esquecidas pelo dia. Mandar notícias para uma amiga. Pedir notícias de outra. Sorrir pra mensagens que chegam de surpresa e falar alguma besteira com quem se disponha. Marcar, com um friozinho de leve na barriga, aquele encontro pra sexta-feira.

Ir dormir às três da manhã. No fim das contas, você acabou lendo mais um pedaço daquele livro.

Sentir uma eletricidade suave e doce percorrer a pele. E ter certeza que tudo que você quer neste mundo, você pode ter. Começando pelo mais importante: ser feliz consigo mesma.

Quem escreveu: Veronica Gunther brinca de ser publicitária, adora seu fotolog no Instagram e é uma das fundadoras da Usina da Forma.

Entre Aspas

dor
Vejo tanta gente reclamando da vida. Meu coração chega a dar um nó cego. Eu sei que cada um tem a sua força e o que é um problemão para mim pode não ser para você. Sei que um indivíduo é diferente do outro, que cada um tem a sua fé, a sua bagagem emocional. Sei mesmo. Mas eu só queria que você soubesse que tem gente em uma situação pior que a sua. Que o ruim mesmo é não ouvir e sentir a barriga roncar e não ter o que comer. Que desesperador mesmo é ter uma doença grave e não ter condições de pagar um bom médico ou fazer um exame sem ter que esperar por meses em uma fila. Que triste mesmo é perder quem a gente ama. Que terrível é ver o filho chorando de fome e não ter dinheiro para comprar um pão no supermercado. Que agoniante é não ter onde morar, pra onde ir ou voltar.
Quem sou eu para julgar a dor do outro? Ninguém. Não estou aqui para fazer julgamentos ou apontar um dedo no meio do seu nariz. O mundo já está cheio dessas pessoas – e eu também. Só quero que você pare um pouco para pensar: será que as coisas não estão sendo maximizadas? Precisa tanto? Esse assunto realmente tem importância? Esse problema realmente é tão cabeludo?
Temos a triste tendência a achar que as coisas são complicadas. Na verdade elas não são. Tudo depende do meu olhar, do seu, do nosso. Tudo depende da forma como você está receptivo. Depende do otimismo, da vontade, da força, da fé.
Sei que algumas situações são realmente preocupantes. Mas será que são tanto assim? Será que não temos a mania de supervalorizar coisas pequenas? Será que não nos deixamos levar pelo pessimismo que toma conta do mundo? Será que não estamos franzindo demais a testa e deixando os problemas subirem nas nossas costas até ficarmos corcundas e cansados?
Vale a pena pensar – hoje e sempre – no que estamos fazendo com o que somos. Você sabe de fato o que é? E o que faz com isso? Vale a pena o questionamento, a dúvida, a pulga atrás da orelha. Não podemos parar, senão o mundo nos atropela sem dó.

Quem escreveu: Clarissa Corrêa, redatora e publicitária

Entre Aspas

facebook

No ano de 2025, a vida real e a vida virtual encontram-se tão intimamente relacionadas que quase não há mais distinção entre as sociedades de fato e as redes sociais. Num contexto em que a inclusão digital alcançou 90% dos habitantes do planeta, e em que existem mais de 7 bilhões de perfis ativos no Facebook, o site de relacionamentos concebido 15 anos antes enfrenta um irônico e até então impensável desafio: sobreviver ao excesso de usuários. Com o intuito de assegurar que a rede não sucumba a um caos de convites e publicações indesejáveis, seus administradores resolvem pôr em prática um rígido código de conduta, medida que coincide com a instituição de um tribunal para julgar infrações e abusos cometidos pelos frequentadores:

– Caso 3742, Facebook contra Fernando Soares. Com a palavra, a acusação.

– Senhor Fernando, consta nos autos uma queixa apresentada pela senhorita Amanda Vasconcellos, de que o senhor a teria cutucado por diversas vezes num período de 2 semanas. A informação procede?

– Sim, procede.

– E qual foi o motivo que despertou um comportamento, digamos, tão compulsivo?

– Bom, a Amanda é minha colega de faculdade e, na aula de Psicologia dos  Avatares II, fiquei achando que ela também se interessava por mim. Por isso cutuquei, para facilitar a aproximação e ajudar a quebrar o gelo…

– Mas 7 vezes consecutivas??

– Como é que eu podia saber que ela não estava gostando? Ela me cutucava de volta!

– Não passou pela cabeça do senhor que a senhorita Amanda poderia apenas estar tentando ser educada?

– Como assim educada? Ela me “tagueou” numa foto…

– Onde estavam tagueadas outras 9 pessoas da turma!

– Ok, tudo bem, digamos que eu tenha abusado das cutucadas, mas no dia em que eu a chamei no chat ela foi enigmática, e foi isso que me levou a pensar que estava rolando um joguinho…

– O que exatamente configura a atitude da senhorita Amanda como enigmática?

– Ela disse: “Fernando, nós precisamos conversar”. Daí eu perguntei sobre o que, e a Amanda não respondeu mais. Fui levado a pensar que ela queria me convidar pra sair mas estava com vergonha…

– Em depoimento a senhorita Amanda alegou que na referida conversa pretendia pedir ao acusado que parasse de cutucá-la insistentemente, mas o sinal do 8G caiu, visto que ela digitava no interior de um avião que adentrava a estratosfera.

– Poxa, e ela nem postou uma foto disso? Eu ia curtir e compartilhar, com certeza!

– Numa outra queixa, o senhor foi denunciado por publicar em janeiro deste ano no Instagram a foto de uma sobremesa, o que, como sabemos, é terminantemente proibido desde 2015.

– Protesto, meritíssimo, meu cliente não comentará suas ações em outras redes sociais!

– Retiro, senhor Juiz. Prosseguindo: na semana passada o senhor foi acusado por diversas pessoas de praticar excesso de postagens sobre um mesmo tema…

– Ah, agora isso também?! Pô, a Apple compra a Grécia e eu não posso nem comentar o assunto com meus amigos? Aliás, que amigos esses, hein…

– O novo código vigente determina que o autor de 3 posts sobre um mesmo tópico seja advertido, e punido com suspensão sumária da conta caso insista com as publicações.

– Meritíssimo, posso me defender? O primeiro post foi o furo da notícia, o segundo, um vídeo do holograma do Steve Jobs comentando a aquisição; o terceiro e o quarto posts foram fotos da bandeira com a maçã mordida sendo hasteada em Atenas. Era relevante!

– Senhor Juiz, a lista de acusações é interminável, mas vamos nos ater a um último ponto: convites para eventos.

– Pronto, lá vem…

– Nos últimos 2 meses o senhor Fernando enviou a sua lista de amigos nada menos do que 19 convites para eventos, muitos destes estapafúrdios, tais como “Reunião dos Saudosos do Twitter” e “Festa de Aniversário da Suzy”, que vem a ser um avatar feminino criado por ele mesmo.

– Só quero deixar registrado que recebi várias confirmações pra festa da Suzy, ok?

– Precisamente 5, todas provenientes de perfis de avatares também criados pelo senhor. Já para o evento do Twitter…

– Bem, acho que cheguei a um veredito. Senhor Fernando, gostaria de dizer alguma coisa antes da sentença ser proferida?

– Sim, gostaria de perguntar ao Senhor Juiz se estou autorizado a fazer um vídeo deste momento…

Quem escreveu: Bruno Medina é músico da banda Los Hermanos e escritor nas horas vagas. Nascido no Rio de Janeiro, formou-se em comunicação pela PUC-RJ, mas a música nunca permitiu que chegasse ao mercado publicitário. Começou a tocar piano e escrever histórias ainda criança, sendo que as duas aptidões o acompanham desde então.

Entre Aspas

sofrer

Se você está sofrendo por causa de um amor perdido, eu tenho más notícias: não há nada que você possa fazer. E não há ninguém que possa ajudar. Na melhor das hipóteses, você vai ter um amigo paciente pra levá-lo a um bar e ouvir suas queixas e, eventualmente, buscar você em um bar e leva-lo pra casa com segurança, nos dias que você se comportar feito um bobo. Na verdade, até existe alguém capaz de curar sua dor, mas esse alguém não costuma ter pressa: ele se chama tempo. Portanto, procure levantar sua cabeça, e dar um passo adiante, por menor que seja, porque você ainda tem um longo caminho a percorrer dentro desse inferno.

Ter pena de si mesmo não vai ajudar em nada, e por mais que você que não acredite, eu posso te garantir que você sente algum prazer em cultivar esse sofrimento. Sim, estar triste é uma forma de exercer a paixão, quando o alvo dessa paixão já se foi. Você está usufruindo o seu direito de estar eternamente apaixonado. Isso é ótimo, prova que você é um romântico. Mas, coisas ótimas não costumam ser baratas, e você tem que pagar seu preço. Em algum momento, tudo isso vai passar. E nesse caso, quando o furacão for embora, ele não deixará destroços, como se nada tivesse acontecido. Você vai recuperar suas noites de sono. Vai se sentir revigorado, vai tá feliz consigo mesmo, vai levantar sua auto-estima. Você vai tá pronto pra entregar seu coração à outra pessoa, mesmo correndo o risco de parti-lo em mil pedaços novamente, porque o amor… sempre vale a pena.

Mais um desabafo sem tortura…

feliz

Aprendi a andar nas estrelas,

Aprendi que o mundo não é um lugar ruim,

Mais sim a maioria das pessoas que nele vivem…

Por isso escolhi esperar por você,

Por isso guardo meus amigos no coração

Porque anjos eu guardo com todo orgulho

Aprendi a sorrir por nada e por tudo.

Eu ainda não sei voar, mais sei sonhar,

Sei sonhar, e aprendi a sonhar alto, longe.

Sei que Deus está comigo…

Aprendi que cada dia mesmo ruim pode ser bom..

Aprendi que um sorriso pode mudar o dia,

Aprendi que algumas atitudes te fazem digno do amor

E que com fé  cada sonho meu será realizado..

Peço a Deus que te guarde,

Que tu sejas não mais um presente,

Mais o presente de Deus pra mim…

Entre Aspas: Rodoviária

bagagem

Antes de embarcar, espero numa fila longa para depositar a bagagem na parte inferior do ônibus.

A medida que a fila se move, percebo o funcionário responsável por acomodar as malas no bagageiro. É um sujeito franzino, ainda novo.

Vendo-o, sei que o rapaz é de origem humilde. Conjeturo que sua família é bastante pobre.

Sua simplicidade revela-se em seus gestos, em seus olhos, na dignidade com que porta o uniforme da companhia de viação.

Com seu corpo frágil, o rapaz levanta, obstinado, mala por mala, e vai dispondo uma a uma, organizadamente, no compartimento do carro.

Realiza a tarefa com esmero e seriedade. Concentrado, alterna-se entre colar na mala a etiqueta numérica, entregar o canhoto ao passageiro e guardar o volume.

Dispensa grande esforço físico. Transpira no rosto. Algumas malas são realmente grandes e pesadas.

Na fila, os passageiros são muitos, e quase todos bem maiores e mais fortes que o rapaz das malas.

Observo essa cena por alguns instantes e, num golpe, compadeço-me daquele moço que guarda as bagagens.

Vejo no seu rosto simples o rosto de todo o meu povo. Meu povo que carrega nos braços e nas costas o peso de um país inteiro. Gente fraca, porém forte.

Tenho vontade de ajudar o rapaz com as malas; tenho vontade de dar-lhe água e conforto.

Tenho desejo de pegar minha gente no colo, de abraçar minha gente, de ninar minha gente.

Apesar das luzes, do barulho e do movimento, consigo sentir a noite. Foi o moço das malas, que me comoveu e me encheu de ternura.

Quem escreveu: Daniela Antoniassi, paulista por certidão e mineira de coração. Daniela é formada pela Universidade de São Paulo e apaixonada por Literatura, especialmente Guimarães Rosa. Escreve desde sempre e agora vive em Paris, onde estuda francês e ensaia para seu mestrado em Antropologia Humana.

Entre Aspas: Sinestesia/Despedida

flor amarelaChegou em casa, colocou as compras em cima do sofá. Foi correndo se lavar. Naquela semana, escolheu flores amarelas para enfeitar o jantar. Podou. Cortou. Colocou no vaso. Molhou a casa se embaralhando para fazer tudo sem nem mesmo se secar. Foi manchando o chão de poças escuras. O taco bege. O taco marrom. O taco preto. Foi escolher o vestido. O pretinho que ganhou dele no ultimo aniversário. Arrumou-o no corpo, ajustou o fecho apertado, tentou se encaixar. Não conseguiu calçar os sapatos. Ele poderia chegar a qualquer momento. Estava tudo pronto. Esperava há tempos. Acendeu uma vela dourada e brilhou o olhar. O amarelo das flores aos poucos foi desaparecendo no vestido preto. A luz do fogo ameaçou falhar. Sentiu seus pés ainda úmidos e as mãos quentes a congelar. Os amarelos murcharam e ele não veio. Ficou o escuro e sumiu o brilho. Apagou a vela e tentou chorar. O preto calou suas lágrimas. E, então, ficou só.

Quem escreveu: Ana Luiza Pereira insiste que os milagres são cotidianos. Por isso, ela treina o seu olhar diariamente no blog A Pattern a Day. A mineira, que estudou Design em Berlim e Curadoria de Arte Contemporânea em Londres, tem certeza que deixa um pedaço de si a cada exposição que visita. Sua grande inspiração é sua avó.