Entre Aspas

caminhos

Estudaram juntos da primeira à quarta série. Ela era a melhor aluna da classe, a mais bonita, a menina perfeita. Ele, do lado de dentro dos seus muros, nunca chegou a falar com ela.

Só reencontraram-se uns vários anos depois, quando prestavam vestibular. Ambos para Direito. Dessa vez conversaram. Ela continuava estudiosa, continuava linda, continuava envolta em capa de intangibilidade. Ele, pensou consigo, passos trôpegos, direção incerta. Continuava desajeitado como um menino.

Aconteceu de passarem os dois na mesma faculdade. Ela, de manhã; ele, à noite. E nos anos da graduação, cada um em seu caminho, pouco se cruzaram. Tão próximos e tão distantes. Ela, sempre a aluna dedicada. Ele, sempre um tanto perdido.

Depois da formatura, não tinham mais se visto. Viviam os dois sem atinar bem que a Fuvest fora quase vinte anos atrás. Reencontraram-se casualmente, como muitos se reencontram hoje em dia, na rede social. Marcaram de tomar um café.

Ela contou sua vida até ali. Estagiou e foi efetivada num desses escritórios maiores do Brasil. Hoje, era sócia. Devia ganhar uma grana. Fez mestrado e agora terminava o doutorado em Processo Civil. Repetiu algumas vezes que, embora não vislumbrasse como, sonhava em um dia mudar de profissão.

Casou-se com o primeiro namorado, mais por falta de habilidade social para se arriscar em outras histórias de que por certeza de paixão ou amor. Completava dezoito anos de casamento. Gostaria de ter tido filhos, mas os estudos e o trabalho nunca lhe deixaram tempo. Também não tinha muito tempo pra passar junto ao marido. Os dois, assim, não se davam mal, e tampouco se davam bem.

Ele escutava e observava. Ela perdera todo seu viço. Parecia uma velha; parecia ser dez anos mais velha do que ele. Era bela, ainda, mas a beleza se escondia em algum lugar longínquo, muito atrás do horizonte dos olhos.

E ele também contou sua vida até ali. Vida de linhas tortas. Fez política estudantil, advogou para um sindicato, perdeu o emprego, começou de novo, buscou outras coisas, buscou-se em outras coisas, e de novo, e de novo. Nesse momento, desejava ainda recomeçar. Foi difícil, era difícil, mas só desse jeito atrapalhado ele sabia viver.

Também sofreu por amor. E fez sofrer. Reconstruiu-se e voltou a cair, o rasgar-se e remendar-se, uma, duas, três vezes. Agora, estava sozinho. Mas com o coração tranquilo. Feliz por se sentir vivo, e triste ao mesmo tempo, porque, afinal, a vida era uma composição inevitável de alegria e tristeza.

Enquanto falava, ele reparou que os olhos dela brilhavam de encantamento. Ela, protagonista das histórias que deram certo, encantava-se com as histórias dele, histórias erradas. Chegava a invejá-lo, a invejar tombos e cicatrizes. Na pele dela, havia apenas a marca do tempo.

Ele saiu arrasado daquele encontro. Triste por ela, tentando imaginar em qual curva de sua estrada reta a menina mais linda tinha deixado seu brilho. Percebeu que talvez ela apenas continuasse a mesma; talvez ela apenas nunca tivesse mudado. E quiçá o brilho da menina não tenha existido, sempre, somente nos olhos dele.

Num impulso de clareza e sinceridade, ele disse a si mesmo que não desejava nunca mais voltar a vê-la.

Quem escreveu? Daniela Antoniassi, paulista por certidão e mineira de coração. Daniela é formada pela Universidade de São Paulo e apaixonada por Literatura, especialmente Guimarães Rosa. Escreve desde sempre e agora vive em Paris, onde estuda francês e ensaia para seu mestrado em Antropologia Humana. Mais textos no http://confeitariamag.com/author/danielaantoniassi/

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